Assim que nascemos, estamos predestinados a velhice, e quanto mais cedo tivermos contato com a realidade, podemos fazer melhores escolhas para chegar a esta fase da vida com mais sanidade (saúde física e psíquica).

Os hábitos físicos, emocionais e relacionais cultivados ao longo da vida influenciam diretamente a forma como iremos envelhecer: com certa autonomia e maior qualidade de vida ou marcados pela fragilidade, dependência e doenças crônicas.

Passar a vida sem fazer contato com as causas que geram o sofrimento, é uma porta de entrada para o agravamento da saúde mental, aumentando o risco de ansiedade, depressão e demência. O adoecimento do idoso, porém, não afeta apenas quem envelhece. A família também enfrenta desafios profundos, lidando com mudanças de papéis, sobrecarga emocional, conflitos, culpa e os desafios para cuidar de um familiar dependente.

Cuidar da saúde emocional é investir em mais dignidade, equilíbrio e bem-estar.

A doença mental na velhice raramente surge de forma isolada. Em muitos casos, ela é resultado de uma história de vida marcada por conflitos não elaborados, sofrimento emocional, isolamento, perdas e hábitos que comprometem a saúde integral. Embora o envelhecimento, por si só, não provoque transtornos mentais, ele pode tornar mais evidentes questões internas que permaneceram ocultas ao longo dos anos.

Para o psicanalista Norberto Keppe, a diferença entre o indivíduo são e o patológico é apenas de grau. Ou seja, o quanto a pessoa é afetada pela esfera mais grave de seu inconsciente patológico, conservando-se menos ou mais doente.

Na perspectiva da Psicanálise Integral

Uma vida orientada por valores éticos favorece a consciência, promove relacionamentos mais saudáveis, reduz conflitos e fortalece o equilíbrio emocional. A prática da ética não elimina o sofrimento nem impede o surgimento de doenças, porque o indivíduo precisa constantemente firmar esse compromisso com o verdadeiro bem-estar, contribuindo para uma existência menos complexa e mais equilibrada.

Quando a vontade humana se afasta da realidade (boa, bela e verdadeira) e passa a servir aos próprios interesses, paixões e mecanismos patológicos, os conflitos surgem afetando a saúde integral do indivíduo. Essa vontade invertida, termo cunhado por Norberto Keppe, manifesta-se em atitudes como a desonestidade, o orgulho, o ressentimento, a vitimização, a negligência consigo mesmo e com os outros, a dificuldade de assumir responsabilidades etc.

A ética não se reduz ao cumprimento de normas morais, mas representa o movimento de retificação da vontade em direção ao Bem, à Verdade e à Beleza. À medida que a pessoa reconhece sua própria patologia, assume responsabilidade por seus conflitos e reorganiza sua conduta de acordo com a realidade, desenvolve maior equilíbrio interior e melhores recursos para uma vida integral.

A fase de cuidar dos pais idosos exige não apenas recursos financeiros como, principalmente, a gestão emocional de todos os envolvidos.

O trabalho que desenvolvo, sendo especialista em gestão de conflitos e consultora em cuidados ao idoso frágil, oferece suporte para que famílias compreendam a nova realidade, organizem os cuidados e encontrem caminhos mais saudáveis para enfrentar os desafios do envelhecimento.

Condições como depressão, ansiedade e demência comprometem a autonomia, a memória, o julgamento e a capacidade de interação social, afetando profundamente a qualidade de vida do idoso. Esse processo também repercute na família, que passa a conviver com mudanças de comportamento, dependência crescente e desafios na tomada de decisões sobre os cuidados.

Por isso, é fundamental que a doença mental seja compreendida de forma ampla, considerando não apenas seus aspectos biológicos, mas também os fatores emocionais, relacionais e sociais envolvidos. O acolhimento do idoso, a orientação aos familiares e a gestão adequada dos conflitos contribuem para um cuidado mais humanizado, preservando, sempre que possível, a dignidade, os vínculos afetivos e a qualidade de vida de todos os envolvidos.

A gestão de conflitos deixa de ser apenas uma técnica de resolução de problemas e torna-se um processo de transformação interior.

Uma volta à origem, ao verdadeiro ser. E, embora a prática ética não elimine todas as formas de sofrimento nem impeça o surgimento de doenças, ela constitui um importante fator de proteção, pois favorece a integração da personalidade, fortalece a consciência e reduz os conflitos produzidos pela inversão da vontade.

Pela inversão, a pessoa vê o bem como mal e o mal como bem. Não faltam exemplos que ilustram essa realidade. Os vícios são uma expressão evidente desse fenômeno: mesmo sabendo dos prejuízos que causam, muitos persistem neles como se fossem uma fonte de benefício. No Catolicismo, essa condição é denominada pecado; na Psicanálise Integral, é compreendida como patologia.